Como erros na transição para o profissional fizeram Lincoln ir de “sucessor de Vinícius Jr.” a dispensável no Flamengo

Em 2017, clube projetava faturar mais de 30 milhões de euros com a venda do atacante

Após a venda de Vinícius Jr. para o Real Madrid, em 2017, era uma unanimidade no Flamengo sobre quem seria a próxima bola da vez. Artilheiro do Carioca sub-17 no ano anterior (com apenas 15 anos), vice-artilheiro do Sul-Americano da categoria e monitorado por gigantes europeus, a expectativa era de que Lincoln explodisse em breve e rendesse outra bolada. Mas uma transição desastrosa para o profissional fez com que o atacante parasse de evoluir e se tornasse um jogador “dispensável” atualmente.

Mas o que viam de tão diferente assim no garoto? “Qualidade técnica, poder de definição, posicionamento, capacidade para finalizar com as duas pernas e facilidade para jogar tanto dentro como fora da área”. Essas foram as qualidades elencadas à época por dois treinadores que trabalharam com o atacante na base: Zé Ricardo e Gilmar Popoca.

Tudo começou a ruir quando Reinaldo Rueda chamou Lincoln para compor o elenco principal após o caso de doping que afastou Guerrero. Com 16 anos e jogando já no sub-20, o atacante foi promovido a profissional, estreou jogando 25 minutos diante do Corinthians e atuou em quatro jogos naquele final de 2017, inclusive na decisão da Copa Sul-Americana, diante do Independiente.

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A partir daí, o jovem foi integrado definitivamente ao elenco profissional. Tanto é que não desceu para a disputa da Copinha de 2018 (que o Flamengo acabou se sagrando campeão) e sequer atuou mais pelas categorias de base. Com um ano de sub-17 e cerca de oito meses como sub-20, seja por opção do clube ou por pressão de seus empresários, Lincoln virou um atleta profissional no rubro-negro.

“Quando o atleta pula o sub-20 e vai para o profissional direto do sub-17 é ruim, porque o sub-20 é a categoria que mais tem competições para ele jogar, onde ele vai vivenciar mais a parte prática. O jogo é o produto final, é quando ele vai mais ser testado, que ele vai ver se está preparado para o jogo psicologicamente. É uma etapa muito importante que a gente pula aqui no Brasil por diversas questões”, avalia Felipe Abdalla, ex-técnico das categorias de base do futsal do Flamengo.

Falta de minutos atrapalharam a evolução de Lincoln

Pelo número de partidas, a impressão que fica é que Lincoln teve muitas chances de demonstrar seu futebol no Flamengo. Mas quando vamos analisar os minutos jogador, a história é totalmente diferente.

Dos 63 jogos que disputou com a camisa rubro-negra, o atacante foi titular somente 14 vezes. No somatório das três temporadas como profissional, foram 1.633 minutos jogados, o que seria equivalente a apenas 18 jogos completos.

“O atleta treina para um propósito. Ele treina para poder jogar em algum momento. Se ele não joga, ele sente isso. E assim, o atleta acaba não rendendo no treino, que é onde ele vai evoluir. No Brasil ainda existe muito esse pensamento: ‘por que eu vou treinar se eu não vou jogar?'”, analisa Abdalla.

Como forma de comparação, a minutagem de Lincoln em três anos como profissional é quase a mesma do lateral Maurício Isla (1.760 minutos), que tem apenas quatro meses de clube. A comparação com seu grande companheiro de base também é brutal. Em 13 meses de Flamengo, Vinícius Jr. teve mais que o dobro de minutos em campo que Lincoln teve em três anos: 3.329 minutos.

“O atleta está em formação a todo momento. Pega por exemplo o Arão depois do Jorge Jesus no Flamengo. Se um jogador profissional está em evolução a todo momento, imagina um atleta de base. Quando pula essa etapa e deixa de colocá-lo num contexto competitivo, você não só desmotiva ele, mas faz com que ele não evolua. E a gente tem vários exemplos de jogadores que queimaram etapas e não foram o que poderiam ser”, afirma o ex-treinador do sub-12, sub-13 e do sub-17 do futsal rubro-negro.

Alternar jogos na base e treinos no profissional teria sido uma boa solução

Recentemente, o Flamengo parece ter identificado o erro que cometeu com Lincoln. Tanto é que alguns dos jovens promovidos ao profissional  (Matheuzinho, Natan, Noga, Ramon, Rodrigo Muniz) têm descido para atuar pelo sub-20 para ganhar minutos de jogo.

Amigo de Maurício de Souza e ex-auxiliar do atual treinador da categoria sub-20 do Flamengo, Felipe Abdalla relembra uma passagem com o zagueiro Igor Rabello, ne época em que Mauricinho comandava o Botafogo.

“Eu lembro que o Igor Rabello já estava treinando no profissional do Botafogo e teve uma situação dele descer para o sub-20 para poder jogar e foi um jogador que rendeu dinheiro para o Botafogo. Se ele não quisesse descer e ficasse como quinto zagueiro, não ia nem jogar, viver uma rotina de jogador desestimulante e de repente não virasse nem jogador mais. De repente não vai ser ruim [descer para jogar no sub-20]. Vai ser dar um passo atrás para dar dois na frente na carreira depois, mas são poucos atletas que têm essa compreensão”, analisa Abdalla.

Outro aspecto importante destacado pelo ex-treinador do futsal rubro-negro, é a nova geração de treinadores que tem surgido nas categorias de base. Muitos clubes estão com técnicos (ou auxiliares e coordenadores) que já vêm com ideias e métodos mais atualizados e podem lapidar ainda melhor os jovens na base.

“E minha análise é que os nossos melhores treinadores brasileiros hoje, os que podem dar mais bagagem de conteúdo, estão na base hoje. Pegando o exemplo do Lincoln, ele não vivenciou na base o Zé Ricardo, o Maurício Souza, que eram treinadores que poderiam agregar a ele e principalmente não vivenciou as competições de base”, afirma Felipe Abdalla, que também lembrou que atual geração do São Paulo trabalhou com André Jardine na base, um dos treinadores mais conceituados na formação de jogadores e que hoje é treinador da Seleção Brasileira sub-20.

Preparo psicológico

Abdalla, porém, destaca que não é só subir o jogador e depois chamá-lo para jogar de volta na base. Segundo ele, tem que haver um trabalho com o atleta para prepará-lo e avisá-lo que ele pode ser requisitado a atuar em categorias inferiores.

“Quando você vai descer o garoto para a base de novo, não é só descer e depois subir de novo. Você tem que preparar o garoto: ‘olha só você vai subir para o profissional, mas pode ser que eu tenha que te puxar aqui para baixo de novo, para você ganhar isso e isso’. A gente se preocupa muito com a parte técnica, mas ele precisa também entender o porquê que ele está fazendo isso. Se preocupar com a formação integral do atleta. Não é só o técnico, não é só o tático. A cabeça do atleta tem que estar preparada pra isso”, explica o treinador.

Inclusive, a parte psicológica requer uma atenção maior nesse período de transição do sub-20 para o profissional, pois o atleta passa a conviver com situações que não vivia na base e pressões infinitamente superiores.

“A transição mais agressiva que existe dentro do futebol é quando passa do sub-20 para o profissional. Ele antes jogava com 5 mil pessoas, para a jogar com 50 mil. Ele tem um salário de R$ 5 mil, passa para R$ 50 mil. As pressões dentro do clubes são diferentes. Tem a imprensa também. Existe um mundo de pressões que o menino está passando do dia para a noite e ele não acompanha do ponto de vista psicológico. É uma questão de dar tempo. O que é melhor: dar tempo ou perder talento?”, explicou Leonardo Monteiro, treinador brasileiro com licença da UEFA e pesquisador sobre a tomadas de decisão no futebol.

Foi com todos esses erros na transição do sub-20 para o profissional que Lincoln passou de alguém que o Flamengo pretendia negociar por € 30 milhões de euros a um jogador que o clube praticamente implorou que o Vissel Kobe o viesse buscar por US$ 3 milhões.

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